domingo, 8 de agosto de 2010

BOTE DE SERPENTE


agora que terminou a noite parece que tanto faz

mas tanto faz coisa nenhuma não esqueço coisa alguma

não te dispenso jamais, não te largarei nunca mais

beijei com os olhos o formato de teus afiados dentes

me embebi dessa voz poderosa, licorosa de vinho quente

lindo foi só te tocar para fazer acordar de repente

o cavalo de fogo arisco solto no teu corpo ardente

e sob o abajur de luz azul da TV ligada sem o DVD

cavalguei com classe essas coxas morenas deliciosas

avancei soberano sobre teu sexo com fome maliciosa

serpente no bote envolvida em saliva devorando a vida

horas massageando orifícios com o dedo, com a língua

queimando sinais vermelhos, ultrapassando pentelhos

violei espelhos esmaecidos, acordei sentidos adormecidos

além disso, tudo está no lugar figura redondinha pra amar

contigo quero tudo agora e já e para acertar eu fico mudo

espero a hora pacientemente te pegar e te lançar novamente

no abismo das paixões avassaladoras roubar arrepios, calafrios

envelhecer tua inocência, roubar pra mim a tua essência

entre o novo e o velho em ti quero ser o fio, o desalinho, o desafio

segunda-feira, 19 de julho de 2010

OS MORTOS-VIVOS DO CRACK AGONIZAM EM PRAÇA PÚBLICA



Por Alexandre Câmara

Não há clínica suficiente no Brasil para internar toda essa gente viciada em crack, mas deveria haver. Isso sim é que tem que ser feito agora e não apenas ampliar o atendimento dos Centros de Apoio Psicossocial - CAPS, como quer o tímido plano do Governo Federal (de combate, prevenção e tratamento) lançado para encarar o problema. É o primeiro passo sim, é bonitinho, mas de boas intenções o inferno está cheio e as ruas lavadas de sangue de gente inocente. O plano de combate ao crack deveria ser emergencial para conter uma epidemia, uma peste, uma praga.

Esse projeto não deverá resolver o problema nem a médio prazo. Imagina quantos menores morrerão assassinados, quantas pessoas serão roubadas, quanto tráfico será realizado até que ele venha virar programa, ser adaptado pelos governos estaduais e municipais e depois disso ainda tem de ser posto em prática, etc. Não parece uma emergência mas é. O crack é um serial killer solto na vida, correndo na frente da polícia junto com os traficantes, à espreita da próxima vítima que é o filho do pobre, da classe média e o filho do rico.

Antigamente a gente só via mortos-vivos em filmes de vampiro. Hoje em dia eles estão por toda parte. Nos sinais de trânsito, perambulando maltrapilhos à noite pelas ruas, vivendo de subempregos como a venda de garrafas ou papelão. Implorar por uma moedinha e cometer pequenos furtos são o trabalho da maioria dos viciados desprotegidos de família, sem recursos financeiros ou apoio governamental. Antigamente as pessoas eram esmolés porque não tinham dinheiro. Havia mais dignidade nisso. Hoje os esmolés do vício são ousados, insistentes e agressivos. Há aqueles que não viraram esmolés porque ainda tem uma casa mas venderam do carro ao botijão de gás para comprar droga. Tem aqueles que a família abandona porque não aguenta tanto sofrimento. Mas há os que prostituem até a mulher em troca de umas pedrinhas da "galega", como é chamada a pedra de crack.

Quem pega uma pedrinha pela primeira vez para curtir, geralmente, termina enclausurado no vício, numa ânsia sem fim de fumar outra, outra e mais outra.São vítimas os menores que se metem no tráfico para vender a droga. Ficam viciados e terminam mortos porque consomem a venda e acabam sem dinheiro para pagar. São usados pelos traficantes como “avião” (transportadores da droga do ponto de venda até o consumidor) porque não são presos. Estão no nicho dos traficantes, que estão infiltrados pelos bairros de Maceió e invadindo municípios alagoanos.

O crack é uma metástase que se alastra por todo o Brasil e chegou aqui: incrivelmente, a ex-pacata Alagoas (exceto pelo seu passado histórico de crimes políticos) está assombrada pelos uivos dos vampiros do crack que agonizam em praça pública; a ex-pacata Alagoas está horrorizada pelas estatísticas estratosféricas de assassinatos. Matar é normal. Nunca se matou tanta criança e tanto jovem nesse Estado. Se estão matando no interior, na capital chega a ser deprimente. Basta visitar diariamente os sites jornalísticos ou assistir aos programas televisivos feitos para a grande massa, pasmem, veiculados no horário do almoço - a hora do vômito. Dificilmente não há um morto estendido, pelas ruas da pobreza de Maceió. Também nunca se viu tanta criança e tanto jovem viciado, perdido, sem perspectiva de futuro como agora. Paradoxalmente, a polícia alagoana nunca trabalhou tanto. Não dá conta. Não dará.

MACONHA

No final dos anos 70 e início dos anos 80, fumar maconha era um escândalo. Uma mãe que tinha o filho maconheiro, tinha uma vergonha imensa; era a desgraça da família. O cara era execrado pela sociedade e ia preso cometendo grave crime. Mesmo que fosse pego só com uma "baga", o que restou do cigarro fumado. Quem fumava, porque sempre se fumou, independente da lei ou da moral, colocava colírio para ficar bonitinho na fita e saía por aí. Mas o fato é que a maconha não destruía tão ferozmente nossos jovens como hoje o crack o faz com seus impactos definitivamente destruidores.

Sem generalizações, a classe baixa, média e a classe alta foram tocadas pelo crack, que fez todo mundo perder a classe. O crack beijou na boca os filhos da burguesia e aí montou-se um romance, uma paixão sem final feliz. Tem filho de político viciado em crack, tem artista de hollywood viciado em crack, tem um amigo da gente, um vizinho, um parente viciado em crack.

A mãe de um amigo meu, que antes era viciado em maconha e agora é em crack, disse a mim que era feliz e não sabia. “Antes, meu filho fumava maconha mas conseguia ter uma vida social normal. Trabalhava, saía com os amigos, se alimentava bem, vivia rindo, se divertia, curtia a vida. Hoje, com o crack, abandonou o comércio que tinha, não se alimenta, emagreceu demais, a pele ficou macerada, acinzentada, as maçãs do rosto estão caídas... Agora vive na minha porta pedindo dinheiro, que nunca é suficiente. Com a depressão pós-uso, ele fica nervoso, com olhos de louco, agressivo, se enerva com qualquer coisa. Me trata mal, quebra os vidros da janela atrás de dinheiro como se fosse um marginal. É um verdadeiro inferno. Queria saber quem apresentou essa droga desgraçada a ele”, afirmou a pobre senhora. A “febre” hoje é o crack.

CRACK: ENLOUQUECEDOR

Em Maceió, é de uma tristeza sem fim, esperar no trânsito o sinal verde. O sinal da praça do Pirulito é um exemplo. São jovens sujos com cara de cadáveres querendo dinheiro. Se você parar depois das 22h para comer um sanduiche ou tomar uma cerveja na praça da Faculdade, no Prado, verá a incrível a quantidade de menores perambulando como indigentes procurando pelo chão um pedaço de crack - que eles sabem que não está lá. O vício faz com que eles surtem e procurem o que nunca houve naquele lugar. Mesmo que eles não tenham fumado naquela área, mesmo assim procuram. É enlouquecedor.

Infelizmente, não vejo solução imediata. Isso passa pelo tráfico, problema que o Brasil não consegue resolver desde sempre. Não consegue resolver problemas menores como, por exemplo, a densidade demográfica do sistema prisional. Os presos são tratados como bichos engalfinhando-se nas celas. Será por falta de dinheiro para construção de presídios e implantação de políticas modernas? Paradoxalmente e sistematicamente pipocam escândalos de políticos corruptos e suas maravilhosas verbas desviadas e nunca resgatadas. Esse é o nosso país: paradoxal. Claro que o tráfico é um problema internacional. Internacionalmente estamos perdendo para os traficantes mas nossos filhos não tem nada a ver com isso. Cobremos que o lento desenrolar da política brasileira adiante o passo. Durma com um barulho desses.

terça-feira, 11 de maio de 2010

FUDIDO


O álcool, a televisão ligada na madrugada

As noitadas, domingueiras embriagadas

Infrações constantes e a galera da pesada

Segundas perdidas, assustadas, ressacadas

Uma era envenenada e o futuro é nada

Nem tenho me perguntado...





Nem tenho me perguntado

Se faço certo ou errado

Fico pensando o que fez

Tio Arthurzinho

Beber a vida na barraca

Se acabar de vez

Tá tudo parado:

Meu mundo desequilibrado

Sem beijos retribuídos

Ou felicidade para todo lado

Novamente preso

Na tristeza dos outros

Na lerdeza para transmutar

O soporífero em despertar

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Como dizia ela...


Como dizia ela

Uma mente embaçada

Uma vida desperdiçada

Delirando pela estrada

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A LUA BÓIA SOLITÁRIA








A lua bóia solitária num céu claro de verão
Mas ilumina a humanidade na noite dessas horas
Tudo está entrelaçado nesse cosmo e há razão de ser
Essa lua viva e esse sol que há em ti traz luz e vida
Teus lamentos ao chão fazem brotar flores pelo caminho
Crescem árvores, folhas, flores e frutos no teu silêncio
É um trabalho de formiguinha, de abelha fazendo mel
Teu blues te transformou em alguém melhor maior
Deixa a lembrança embalar confortavelmente os dias
Apinha o que ficou de melhor e ergue um altar à altura
Sela historicamente esse amor que foi será pra sempre
Constrói um castelo de pedra com o que ficou de tátil
Uma estátua de bronze desse grande amor jamais volátil