segunda-feira, 19 de julho de 2010

OS MORTOS-VIVOS DO CRACK AGONIZAM EM PRAÇA PÚBLICA



Por Alexandre Câmara

Não há clínica suficiente no Brasil para internar toda essa gente viciada em crack, mas deveria haver. Isso sim é que tem que ser feito agora e não apenas ampliar o atendimento dos Centros de Apoio Psicossocial - CAPS, como quer o tímido plano do Governo Federal (de combate, prevenção e tratamento) lançado para encarar o problema. É o primeiro passo sim, é bonitinho, mas de boas intenções o inferno está cheio e as ruas lavadas de sangue de gente inocente. O plano de combate ao crack deveria ser emergencial para conter uma epidemia, uma peste, uma praga.

Esse projeto não deverá resolver o problema nem a médio prazo. Imagina quantos menores morrerão assassinados, quantas pessoas serão roubadas, quanto tráfico será realizado até que ele venha virar programa, ser adaptado pelos governos estaduais e municipais e depois disso ainda tem de ser posto em prática, etc. Não parece uma emergência mas é. O crack é um serial killer solto na vida, correndo na frente da polícia junto com os traficantes, à espreita da próxima vítima que é o filho do pobre, da classe média e o filho do rico.

Antigamente a gente só via mortos-vivos em filmes de vampiro. Hoje em dia eles estão por toda parte. Nos sinais de trânsito, perambulando maltrapilhos à noite pelas ruas, vivendo de subempregos como a venda de garrafas ou papelão. Implorar por uma moedinha e cometer pequenos furtos são o trabalho da maioria dos viciados desprotegidos de família, sem recursos financeiros ou apoio governamental. Antigamente as pessoas eram esmolés porque não tinham dinheiro. Havia mais dignidade nisso. Hoje os esmolés do vício são ousados, insistentes e agressivos. Há aqueles que não viraram esmolés porque ainda tem uma casa mas venderam do carro ao botijão de gás para comprar droga. Tem aqueles que a família abandona porque não aguenta tanto sofrimento. Mas há os que prostituem até a mulher em troca de umas pedrinhas da "galega", como é chamada a pedra de crack.

Quem pega uma pedrinha pela primeira vez para curtir, geralmente, termina enclausurado no vício, numa ânsia sem fim de fumar outra, outra e mais outra.São vítimas os menores que se metem no tráfico para vender a droga. Ficam viciados e terminam mortos porque consomem a venda e acabam sem dinheiro para pagar. São usados pelos traficantes como “avião” (transportadores da droga do ponto de venda até o consumidor) porque não são presos. Estão no nicho dos traficantes, que estão infiltrados pelos bairros de Maceió e invadindo municípios alagoanos.

O crack é uma metástase que se alastra por todo o Brasil e chegou aqui: incrivelmente, a ex-pacata Alagoas (exceto pelo seu passado histórico de crimes políticos) está assombrada pelos uivos dos vampiros do crack que agonizam em praça pública; a ex-pacata Alagoas está horrorizada pelas estatísticas estratosféricas de assassinatos. Matar é normal. Nunca se matou tanta criança e tanto jovem nesse Estado. Se estão matando no interior, na capital chega a ser deprimente. Basta visitar diariamente os sites jornalísticos ou assistir aos programas televisivos feitos para a grande massa, pasmem, veiculados no horário do almoço - a hora do vômito. Dificilmente não há um morto estendido, pelas ruas da pobreza de Maceió. Também nunca se viu tanta criança e tanto jovem viciado, perdido, sem perspectiva de futuro como agora. Paradoxalmente, a polícia alagoana nunca trabalhou tanto. Não dá conta. Não dará.

MACONHA

No final dos anos 70 e início dos anos 80, fumar maconha era um escândalo. Uma mãe que tinha o filho maconheiro, tinha uma vergonha imensa; era a desgraça da família. O cara era execrado pela sociedade e ia preso cometendo grave crime. Mesmo que fosse pego só com uma "baga", o que restou do cigarro fumado. Quem fumava, porque sempre se fumou, independente da lei ou da moral, colocava colírio para ficar bonitinho na fita e saía por aí. Mas o fato é que a maconha não destruía tão ferozmente nossos jovens como hoje o crack o faz com seus impactos definitivamente destruidores.

Sem generalizações, a classe baixa, média e a classe alta foram tocadas pelo crack, que fez todo mundo perder a classe. O crack beijou na boca os filhos da burguesia e aí montou-se um romance, uma paixão sem final feliz. Tem filho de político viciado em crack, tem artista de hollywood viciado em crack, tem um amigo da gente, um vizinho, um parente viciado em crack.

A mãe de um amigo meu, que antes era viciado em maconha e agora é em crack, disse a mim que era feliz e não sabia. “Antes, meu filho fumava maconha mas conseguia ter uma vida social normal. Trabalhava, saía com os amigos, se alimentava bem, vivia rindo, se divertia, curtia a vida. Hoje, com o crack, abandonou o comércio que tinha, não se alimenta, emagreceu demais, a pele ficou macerada, acinzentada, as maçãs do rosto estão caídas... Agora vive na minha porta pedindo dinheiro, que nunca é suficiente. Com a depressão pós-uso, ele fica nervoso, com olhos de louco, agressivo, se enerva com qualquer coisa. Me trata mal, quebra os vidros da janela atrás de dinheiro como se fosse um marginal. É um verdadeiro inferno. Queria saber quem apresentou essa droga desgraçada a ele”, afirmou a pobre senhora. A “febre” hoje é o crack.

CRACK: ENLOUQUECEDOR

Em Maceió, é de uma tristeza sem fim, esperar no trânsito o sinal verde. O sinal da praça do Pirulito é um exemplo. São jovens sujos com cara de cadáveres querendo dinheiro. Se você parar depois das 22h para comer um sanduiche ou tomar uma cerveja na praça da Faculdade, no Prado, verá a incrível a quantidade de menores perambulando como indigentes procurando pelo chão um pedaço de crack - que eles sabem que não está lá. O vício faz com que eles surtem e procurem o que nunca houve naquele lugar. Mesmo que eles não tenham fumado naquela área, mesmo assim procuram. É enlouquecedor.

Infelizmente, não vejo solução imediata. Isso passa pelo tráfico, problema que o Brasil não consegue resolver desde sempre. Não consegue resolver problemas menores como, por exemplo, a densidade demográfica do sistema prisional. Os presos são tratados como bichos engalfinhando-se nas celas. Será por falta de dinheiro para construção de presídios e implantação de políticas modernas? Paradoxalmente e sistematicamente pipocam escândalos de políticos corruptos e suas maravilhosas verbas desviadas e nunca resgatadas. Esse é o nosso país: paradoxal. Claro que o tráfico é um problema internacional. Internacionalmente estamos perdendo para os traficantes mas nossos filhos não tem nada a ver com isso. Cobremos que o lento desenrolar da política brasileira adiante o passo. Durma com um barulho desses.

terça-feira, 11 de maio de 2010

FUDIDO


O álcool, a televisão ligada na madrugada

As noitadas, domingueiras embriagadas

Infrações constantes e a galera da pesada

Segundas perdidas, assustadas, ressacadas

Uma era envenenada e o futuro é nada

Nem tenho me perguntado...





Nem tenho me perguntado

Se faço certo ou errado

Fico pensando o que fez

Tio Arthurzinho

Beber a vida na barraca

Se acabar de vez

Tá tudo parado:

Meu mundo desequilibrado

Sem beijos retribuídos

Ou felicidade para todo lado

Novamente preso

Na tristeza dos outros

Na lerdeza para transmutar

O soporífero em despertar

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Como dizia ela...


Como dizia ela

Uma mente embaçada

Uma vida desperdiçada

Delirando pela estrada

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A LUA BÓIA SOLITÁRIA








A lua bóia solitária num céu claro de verão
Mas ilumina a humanidade na noite dessas horas
Tudo está entrelaçado nesse cosmo e há razão de ser
Essa lua viva e esse sol que há em ti traz luz e vida
Teus lamentos ao chão fazem brotar flores pelo caminho
Crescem árvores, folhas, flores e frutos no teu silêncio
É um trabalho de formiguinha, de abelha fazendo mel
Teu blues te transformou em alguém melhor maior
Deixa a lembrança embalar confortavelmente os dias
Apinha o que ficou de melhor e ergue um altar à altura
Sela historicamente esse amor que foi será pra sempre
Constrói um castelo de pedra com o que ficou de tátil
Uma estátua de bronze desse grande amor jamais volátil


TRÂNSITO: O ESTRESSE URBANO


Por Alexandre Câmara

Ainda bem que me mudei para Rio Largo. Apesar de morar em Maceió, no Trapiche da Barra, ouvindo o barulho do mar, nunca me enganei. Sempre estive muito pertinho do caos. Hoje tenho paz de espírito porque o que mais me enlouquecia era esse trânsito que me fazia sentir impotente, estúpido, enganado pelo sistema, uma peça sem valor, um número de identidade.

Maceió não é mais a mesma. Já vai longe o tempo em que a Ponta Verde não tinha sinal de trânsito, que a Pajuçara não engarrafava e que trânsito no Farol era só até o viaduto do antigo CEPA. Hoje, um dos maiores motivos de estresse e do mau humor na cidade de Maceió são os engarrafamentos por qualquer região da cidade por onde se trafegue.

Atualmente só entram nos claustrofóbicos engarrafamentos do trânsito do Centro os desavisados, os esquecidos e os que não têm escapatória. Por onde quer que se entre ou se saia, a palavra de ordem é esperar, esperar e esperar. Detalhe: sob o sol escaldante, todo suado dentro do carro, sempre à espreita da sirene neurótica do SAMU. E quando ele passa, ache um lugar para enfiar o carro!!! Antes fosse a musiquinha do gás. Cidadania é educação. Silêncio para os doentes. Barulho é estratégia de guerra.

Se o cara pegar um ônibus para Rio Largo, por exemplo, às 16h30 nos Martírios, via Fernandes Lima, se houver algum transtorno como acidente, só vai chegar no Centro de Rio Largo por volta de 18h30, o que parece insano considerando que o percurso é de 28 Km, que pode ser feito em cerca de 30 minutos. Os contornos de quadra do Farol conseguiram dar uma aliviada na mórbida velocidade dos autos em direção ao Tabuleiro. Mas com as facilidades oferecidas à população para a compra de automóveis talvez já tenha inviabilizado a parca melhora do desenvolvimento do trânsito em direção ao Tabuleiro.

Do centro para o Benedito Bentes via Jacintinho-Barro Duro então..., amargue horas para chegar. Ali um dos principais gargalos é exatamente o Jacintinho, onde autos, ciclistas ousados, caminhões de feira, feirantes nas esquinas e transeuntes que enfrentam corajosamente os carros se confundem. Para ultrapassar o Barro Duro é outra novela. Uma novela lenta e enfadonha que os espectadores são obrigados a ficar ligados.

Na hora do rush evite subir pela Cambona; é angustiante, abafado, praticamente não se sai do lugar até se chegar no sinal que bifurca a ladeira do mirante de Bebedouro com a entrada da Chã da Jaqueira - voltar é mais tranqüilo. Aliás, descer do Tabuleiro para o Centro pela Cambona é uma experiência legal: a lagoa Mundaú, o por do sol, a ventania entrando pelo carro nas imediações de Santa Amélia. Bem gostoso.

O sonho do inconsciente coletivo de felicidade não pode existir nos centros urbanos se você não anda de helicóptero. E mesmo nesse caso, os problemas são outros: seqüestros, preocupações com segurança por causa da violência, etc. Eu quero mais é alimentar minhas pequenas riquezas. Ter tempo para sentir o cheiro de terra emanando do quintal em dia de chuva. Ouvir a sinfonia de cigarras quando o dia amanhece. Ter ventania de uma janela a outra passando pelo meu café da manhã. Iniciar o dia preso no trânsito para chegar no trabalho que paga pouco e oferece um futuro pessimista é coisa de doido. E depois, o doido sou eu.

Então ficamos assim


Então ficamos assim

Depois de aflorar tudo novamente e mim

Você vem estraga tudo no fim