quarta-feira, 21 de outubro de 2009

ENQUANTO ELES SE DEBATEM...


Enquanto eles se debatem no caótico dia-a-dia engarrafado,
Buzinento, barulhento da semi-metrópole solar e analfabeta
Ficamos por aqui fluindo aos pés das bananeiras verde - musgo
Por entre lufadas oriundas dos pés de colônia ao vento forte
A cozinheira cochilando avisa que só acorda quando a vida melhorar
E o rio Mundaú segue deixando molhadas crianças agitadas ao sol
foto Paulo Nicácio

terça-feira, 20 de outubro de 2009

EITA...



Eita que você acaba de viajar

Vou amar na sala na cozinha

Abrir gemendo a torneira da pia

Molhar meu amor meu calor

E andar nu pelo meio da casa

Primeiro me adaptar sem você

A solidão é segura forte potente

Mas já vem o Natal o presente

Não dá mais é parar de sofrer

Quero mais é acordar à noite

Fechada a porta fachada à mostra

Ir direto pro bar sacanear

Olhos de amor no meio da rua

Quero a vida inteira imensa lua

E o sol vai nascer deslumbrante

To aí com saudade de ti

Uma intensa vontade de mim

E passa outro carro outro cara

Mais um número minha tara

Viver é maior que o melhor

Dos preceitos relevantes.

domingo, 18 de outubro de 2009

NATUREZA MORTA





A fruteira está lá linda
As bananas amarelíssimas
De uma luz solar
Chocando-se
Com a indecência luminosa das maçãs
Dói na vista de tanta beleza
O mamão quase maduro
E quase doce quase mel
Retirado hoje do quintal
Uma natureza que a partir de agora
Vai ficando lá morta
Cada vez mais morta
O bolo de passas envelhece
Incólume sobre o bufê
As jarras de suco vão
Ficando vazias sem você
Toda a beleza que outrora havia
Passa ao largo segue a ventania
Como um filme velho que arrebenta
Um efeito publicitário
Uma lente, um filtro anos 70
Sei que você nem vai se dá ao luxo
De perguntar o por que
Isso você nem vai querer saber
Você disse que ia voltar pelas manhãs
Todas as manhãs?
Pra encher de água amor e ração marinha
O lago dos peixes
As papoulas amarelas estão lá caindo
Precisando de feixes prismáticos de água
As ixóras, as bougainvilles e os bambuzeiros
Te aguardam ardentes de sol
A calopsita então, que já era sozinha
Agora então o que fará?
Vem quando o sol raiar cuidar desta casa
Desta casa que sem ti não há vida
E a cadela querida parida
Não vai mais passear pela praia da Avenida?
Quanto a mim, não se incomode
Uma coisa boa da idade
É passar por fortes emoções com naturalidade
Sem os grandes arroubos da juventude
No abissal niilismo da seca maturidade

CACATUA


O parceiro da minha cacatua morreu

e ela parou de cantar

Eu fiquei de comprar outro casamento

mas esqueci de lembrar

Ela ficou louca, surtou na solidão

nada lhe servia ao coração

Tirei sua gaiola da parede

e a coloquei embaixo do pomar

Hoje ela é cantante na vida,

pelos olhos embevecida arde de amar

CARTA PARA UMA AMIGA


por enquanto é melhor mesmo

nos falarmos por email ou pelo Orkut

a gente se encontra a qualquer momento

pelas escadarias daquele prédio quente

ou em algum evento a favor das minorias

comuniquei que estava saindo

e não era frescura minha

não somos obrigados a conviver

com o mau humor constante

ou vivermos sempre culpabilizados

por aquilo que não cometemos

ou, se cometemos, teve valor irrisório

e descartável perante a beleza da vida

e a construção de parcerias

(e não de subserviências)

eis que essas só visam o bem;

perante o próximo passo

eis que a vida anda para frente

cada um que lave sua persona como quiser

e não deságue mazelas no rio alheio

ganho pelas amizades que fiz

experiências que adquiri

enfrento suavemente

mudanças abruptas

o projeto deve dar certo

- porque o povo é credo -

exceto por essa "síndrome da vírgula"

que busca até o deslize dos pares

e provoca reações em cadeia

de temor, insegurança e revide

não há dinheiro que compense

a perda da paz de espírito

recomeço com o olhar no horizonte

não acredito no controle exacerbado

nem na crítica carregada de desconfiança

lembra-me George Orwell, em “1984”

ou, num viés avesso,

a elegância e o refinamento de Oscar Wilde

não guardo mágoas e mantenho admirações

são típicas reações às duras ações da vida

nem rancoroso, nem truculento

cuido do meu jardim,

passeio com os labradores pela praia

acendo a luz do espelho d'água

e nado meus peixes à noite

levo a cacatua para assistir

ao mar manhã cedinho

tenho ficado muito ao lado

da senhora minha mãe

usufruo de sua bondade e me enternece

o seu lento desistir das coisas

hoje é sábado, o dia amanhece

SAUDADE DO MEU...






(para Letícia Elena)


saudade do meu tempo vago
vontade de jogar tudo pro ar
conquistar pequenas coisas
mas ter tesão de curti-las
quero o meu tempo do mar
as gargalhadas noturnas
a calmaria de meu jardim
e esse inverno para sempre
pra que tanto sol de solidão
se a agua marinha salga
minha pele na beira
de um solar
lunar pra dois
quero penetrar, penetrar
e penetrar no verde marinho
lodacento e selvagem
percorrer caminhos delirantes
sob a luz da lua gozando no mar
preto e prata sob céu plúmbeo
ereto está o marfim do unicórnio
numa noite carnuda e molhada

HÁ MUITO TEMPO...




Há muito tempo que eu passo pela sua porta

Passo no carro som alto manhã tarde e noite

Desde sempre desejo desde o primeiro dia

Na porta da casa da mãe passo na praça paro

Quando você era garoto creio era você

Um dia falou arriscou parei marcou não rolou

Sempre que surge pago mico pra lhe ver passar

Agora que a gente ta se vendo na academia

Você logo no primeiro dia já rolou um lero

Altura de nordestino corpo de viking moreno

Rosto perfeito de selvagem beleza alagoana

Coxa grossa, bunda grande, tatoos nos braços

Brinco na orelha nesse bravo garoto casado

A loucura inocente é quem vai nos juntar

Vamos sair sim buscando alguma parada por aí

Depois disso eu que segure a onda a lombra

Pra rolar eu seu você vai ter que me admirar

Natural deixar rolar depois que a onda passar

Nem no primeiro dia precisa pintar essa parada

Vamos seguindo, construindo, desarmando

Quero invadir por dentro o mais puro de você

Ser seu amigo sensual deixa pra lá o espiritual

Perto da reta final piro de cara num cara banal